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Se nunca conheci o inverno? Não exatamente. O conhecia como um primo distante. A gente sabe que ele existe, que é da nossa família, mas que não faz parte efetivamente da nossa vida. A gente chega até a lembrar vagamente como ele é, mas conhecer de verdade a gente não conhece. Pois bem, eis que depois de quase 27 anos, cá estamos nós, frente a frente. Nós nos olhamos, percebemos as primeiras impressões e uma proximidade começa a surgir. E não havia lugar melhor para esse encontro.

Outono 01

Confesso que a ideia de viver uma trégua do calor do meu amado Ceará fez com que eu já ansiasse por esse encontro. Cheguei em Nova York no finalzinho de Outubro. O friozinho gostoso que fazia na cidade fez com que eu sentisse um gostinho do que estava por vir. Como era outono, a cidade estava linda com folhas caídas ao chão. Eu já começava a amar esse clima. Mas ele não demorou muito para abrir cenário para outra estação. Os dias passavam e o frio aumentava à mesma medida que aumentavam os casacos pela rua.

Passar uns dias curtindo o inverno em Nova York nos faz lembrar da infância e das inúmeras vezes que assistimos as aventuras do pequeno Macaulay Culkin na Big Apple. Em dezembro, a cidade ganha uma beleza mágica com suas vitrines especiais de Natal. Impossível não voltarmos à infância vendo a beleza dos detalhes minuciosos. Elas são uma verdadeira obra de arte que encontramos gratuitamente em cada esquina. Por algumas semanas, o inverno fica mais amigo e quase não lembramos do frio diante de tantas coisas a entreter nossos olhos e nossos corações.

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Mas nem tudo são flores no frio de NY. Logo o Natal passou e ficaram as baixas temperaturas e ventos que as faziam cair ainda mais. O inverno parecia querer congelar nosso sentimento aventureiro. Para cada saída, camadas e mais camadas de roupa. Casacos mais pesados. Botas imprescindíveis. Passear por aí precisou de mais estratégia para pensar nos caminhos, nos transportes e nas previsões. Não dá pra simplesmente acordar e sair sem olhar como estará o tempo. É certeza de voltar antes para casa ou por frio demais, ou por roupa demais! Os dias ficam mais preguiçosos, demorando mais para aparecer e escurecendo mais rápido.

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Para os que ficam em NY, o frio e os dias mais curtos viram quase um tormento. A vontade de sair do quentinho de nossas casas, do trabalho ou da escola para se aventurar por aí fica cada vez menor. E assim a alegria de conhecer cada cantinho dessa nova e mutante realidade vai ficando cada vez mais esquecida. É quando a cidade mostra de novo um de seus maiores encantos. Ela corre. Não há frio que faça diminuir o ritmos dos seus milhares de habitantes e dos outros milhares que chegam a cada dia. Cada minuto no conforto da sua comodidade é um perdido para o seu futuro. Afinal, você está em Nova York! Está fazendo o que aí parado?

Não nos esqueçamos que o frio tanto queima quanto o gelo conserva

As palavras do Pe. Airton Freire parecem traduzir uma complexa mistura de sentimentos que começa a surgir na gente nesse tempo. É um constante conflito entre o “calorzinho aqui de dentro” com a infinidade de experiências “lá de fora”. Se a gente já vê normalmente a vida passar a nossa frente quando nos falta coragem para correr atrás dela por aí, aqui ela passa voando. Viver o inverno na comodidade do cantinho mais quentinho é viver a perda das cores, das árvores sem folha, a seriedade dos rostos. Viver o inverno no desafio constante a si mesmo é viver o sabor de descobrir novos caminhos, é viver a surpresa de descobrir que, mesmo com o termômetro mostrando os números cada vez mais negativos, você pode se sentir aquecido pelo seu próprio calor, gerado pela simples decisão de movimentar-se!

Foi assim que aconteceu comigo. Essa pequena está longe de ser perfeita. Falo pela experiência própria de quem experimentou o saudosismo das cores do Outono e até o calorzinho do meu Ceará. De quem deixou-se muitas vezes render-se pela comodidade de estar aquecido por meios artificiais. Dizem que tudo na vida é um aprendizado né? Quem decide tomar o caminho aparentemente mais difícil, descobre que o gelo também é amigo. Que o frio traz os ventos que “ferem”, mas traz a neve que, de surpresa, lhe leva instantaneamente para os sonhos mais puros e a alegria mais simples e verdadeira de uma criança. Nova York nos traz a magia da surpresa inesperada. Nos empurra ao crescimento com a dureza da realidade e, ao mesmo tempo, com a magia de um sonho.

Lis e snowmen

E foi assim, no meio dessa Selva de Concreto que o frio trouxe um de seus mais lindos encantos: a neve! Quem para para saborear a aventura de se auto-desafiar pode encontrar lindas surpresas. Como a de descobrir que os flocos de neve são mesmo como os desenhos nos falavam(!). Como descobrir que tempestades de neve podem transformar um simples gramado em um maravilhoso playground onde todas as idades parecem se unir em uma só. Bonecos, anjos e esquiadores são redescobertos. E o frio? Que frio?

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